Trem da Noite – Prólogo

 


 

Tendo finalizado os planos de comparecer ao Festival do Fogo de Kurama[1] com amigos do círculo de conversação em inglês que participei em meus dias de faculdade, parti de Tóquio para Quioto no final de outubro.

Saí de onde estava ao meio-dia e cheguei ao destino por volta das 14h.

Um breve passeio pelo centro da cidade me levou da Estação de Quioto até Shijō Kawaramachi[2], onde embarquei em um ônibus em direção à Estação Demachiyanagi[3]. Quando o ônibus cruzou a Ponte Kamo, vi pipas pretas voando pelo céu arquetipicamente claro de outono.

Os portões de passageiros da Ferrovia Eizan já estavam lotados de turistas. Eu estava encostado em uma coluna e pensando em como havia chegado cedo, e então ouvi alguém gritar do outro lado da multidão: “Ōhashi!” Me virei e encontrei Nakai andando em minha direção enquanto acenava.

— Você com certeza está adiantado!

— Você também, Nakai.

— Odeio me atrasar. Além disso, queria dar uma olhada na escola antes de todos nós nos reunirmos aqui.

— Aquilo ainda está lá?

— Pode apostar. Aquilo despertou algumas memórias.

A escola de inglês ficava em um prédio de madeira de um único andar, escondido em uma rua lateral da estrada principal entre a Estação Demachiyanagi e o cruzamento Hyakumanben[4]. As aulas com o professor, um estrangeiro, duravam cerca de uma hora. Por estar localizada perto da Universidade de Quioto, a maioria dos alunos eram graduandos ou pesquisadores. Comecei a frequentá-la durante meu segundo ano de faculdade, e Nakai frequentava a mesma classe todas as noites. Na época, ele estava trabalhando para conseguir seu mestrado.

— Cheguei com minha esposa ontem — disse ele. Na noite anterior, haviam se hospedado em um hotel em Kawaramachi, e nesta manhã sua esposa se encontrou com uma amiga para visitar alguns dos templos antes de voltar para Tóquio um pouco mais cedo. Eu já tinha visto ela várias vezes, fui até mesmo à festa de casamento deles, e também fiz uma visita social ocasional ao seu apartamento em Suidobashi[5].

Ficamos parados ali, batendo papo, esperando que nossos demais companheiros aparecessem.

— Não acredito que estamos realmente nos encontrando — comentou Nakai.

— Afinal, já se passaram dez anos…

É difícil dizer se esses dez anos foram longos ou curtos. Morando em Tóquio, tudo o que acontecera em Quioto parecia ter sido a muito tempo atrás. Mas, ao retornar para o lugar e voltar a conversar com Nakai, parecia que não havia passado tempo nenhum.

— Fico feliz que você tenha vindo. Duvido que algum dia eu voltaria aqui se não fosse por isso. — Enquanto Nakai fazia essa observação, vi Takeda emergindo no topo da escada que descia para a Linha Keihan. Ele era o mais jovem de todos nós; o conheci quando ele ainda era um primeiranista. Ao nos ver parados ali, começou a correr, mantendo um sorriso enorme no rosto.

— Ei, caras. Quanto tempo!

 

 

Quando eu estava matriculado na escola de inglês, Nakai era o núcleo do nosso grupo. Ele era um sujeito acolhedor, sempre convidando as pessoas para as refeições. Foi por sua causa que acabei conhecendo pessoas das outras turmas. Éramos todos estudantes, e nós seis tomamos a linha Eizan[6] para o Festival do Fogo de Kurama naquele outono, há dez anos, e Nakai era nosso líder.

Takeda se juntou a nós e, enquanto nos encontrávamos, Fujimura apareceu. Ela tinha a mesma idade de Takeda e, desta vez, seria a única mulher a viajar conosco para Kurama. Quando ela nos viu lá, já começou a rir alto.

— Parece até que foi ontem!

— Isso é engraçado, para mim parece que foi há uma eternidade — disse Takeda. — Mas isso é porque eu mudei muito. Agora sou uma pessoa diferente.

— Sério?

— Uma hora ou outra você vai ver.

— Tudo bem, pessoal — anunciou Sakai. — Vamos para o hotel em Kibune[7]. — Tanabe, o mais velho do nosso grupo, ia se atrasar por causa do trabalho, então todos passamos pelos portões de passageiros e embarcamos em um trem.

Partimos pela cidade em direção ao norte.

Como estudante, eu tinha uma espécie de fascínio pela Linha Eizan. Correndo pela cidade ao crepúsculo, parecia até que estava indo para o País das Maravilhas. Sempre que a tomava, me sentia como se estivesse embarcando em uma longa, longa jornada. Enquanto eu olhava pela janela, Fujimura, que estava ao meu lado, interrompeu meus pensamentos.

— Obrigado por me chamar, Ōhashi!

— Fiquei feliz quando percebi que seu número continuava o mesmo.

— Você deveria dar uma passadinha pela minha galeria quando voltar para Tóquio. Você não trabalha por perto?

— Bem, eu não sou um grande apreciador.

— Isso não importa. Você devia aparecer uma hora ou outra.

Ela olhou pela janela e ficou em silêncio. Talvez estivesse pensando em seus dias de estudante.

Depois de um tempo, voltou a se dirigir a mim.

— Então, o que te fez pensar em nos reunir de novo?

— Essa é uma boa pergunta.

— Algum motivo em particular?

— Na verdade não. Só achei que já estava na hora.

— Justo… Acho que você tem razão. — Fujimura acenou com a cabeça e olhou para trás pela janela. Há dez anos, seis amigos da escola de inglês foram assistir ao Festival do Fogo de Kurama. Naquela noite, um desses amigos desapareceu.

Se procurasse nos jornais daquela época, encontraria um breve artigo com pouca informação. As autoridades apareceram de mãos vazias e nenhuma pista foi encontrada. Foi como se ela tivesse desaparecido no meio do ar. Na época de seu desaparecimento, Hasegawa estava no segundo ano, assim como eu.

De repente pensei em algo. Talvez tivesse reunido todos porque ela estava me chamando. À medida que o trem avançava cada vez mais adentro nas montanhas, olhei pela janela e imaginei que, em algum lugar na escuridão, entre os pinheiros ao lado dos trilhos, estava a desaparecida Hasegawa.

Meus pensamentos se voltaram para a galeria de arte que tinha visitado anteriormente.

 

 

Eu tinha chegado na estação de Quioto à tarde, mas com bastante tempo para matar até o horário do encontro, me separei de Shijō e dei uma caminhada pelo distrito comercial.

O Festival de Jidai seria no dia seguinte, então as ruas estavam cheias de turistas neste fim de semana, tanto estrangeiros quanto nacionais. Para evitar as multidões na via principal, peguei uma rua lateral e fui para o norte, seguindo pela Rua Takakura. Abaixo, neste cânion urbano[8], olhei para cima e vi o céu de outono sereno e sem nuvens, e então me lembrei de como havia olhado para o mesmo céu quando era estudante.

Eu estava andando quando minha atenção foi atraída para uma mulher logo à minha frente. Havia algo de transcendente nela. Sua postura era reta e seu cabelo preto brilhava sob o sol de outono. Senti como se já a tivesse visto antes, embora não soubesse quando ou onde.

Enquanto tentava descobrir por que ela era tão familiar, a mulher entrou em uma loja na Rua Takakura. Tive um vislumbre de seu rosto e percebi que era exatamente como o de Hasegawa.

Não pode ser ela, pensei, mas meu coração bateu forte no peito e meu ritmo acelerou, comecei a quase correr.

A loja era uma galeria de artes apertada, e a placa de cobre na frente dizia que era a Galeria Yanagi. A vitrine estava forrada com um pano cor de bronze e, em cima, havia uma placa que dizia: “Kishida Michio – Exposição Solo”, ao lado de uma única gravura em cobre. Havia algo estranhamente cativante na gravura. Do outro lado de um arvoredo, as luzes brilhantes de um trem abriam caminho pela noite escura. Uma mulher solitária ficou olhando para a locomotiva, deixando a mão direita erguida como se o chamasse. Ela estava de costas para o visualizador, de modo que não pude ver seu rosto. Era intitulado como Trem da Noite —— Kurama.

Abri a porta de vidro e entrei na galeria.

Os limites da longa galeria eram escuros e o leve odor de incenso queimando pairava no ar. Os mezzotints[9] pendurados nas paredes branco leitosas eram todos de cores escuras, eram como janelas retangulares inseridas na parede e que se abriam para um mundo noturno. As grossas portas de vidro isolavam o interior da agitação das ruas do lado de fora, e a galeria era sufocada por um silêncio quase sobrenatural.

A mulher não estava em lugar nenhum.

Enquanto eu estava lá, perplexo, um homem em um terno emergiu da sombra da divisória ao fundo da galeria. Embora ele parecesse estar com quase 30 anos, presumi que fosse o proprietário do local.

— Seja bem-vindo.

— Uma mulher acabou de entrar aqui?

O proprietário me olhou com cautela.

— Não que eu saiba…

Devo ter me enganado, pensei comigo mesmo. Minha apreensão por voltar ao Festival do Fogo de Kurama após dez anos devia estar me fazendo ver coisas que não existiam. Eu havia chamado todos para ir ao festival como uma forma de relaxar, mas, de alguma forma, simplesmente não conseguia me livrar da convicção de que, em algum lugar, Hasegawa ainda estava viva.

Estava muito constrangido para simplesmente sair, e ainda faltava algum tempo para o encontro, então decidi ficar e olhar as gravuras. Em um tom imperturbável, o jovem proprietário explicou tudo, desde a técnica do mezzotint à vida do artista Kishida Michio.

Kishida abandonou a escola de artes em Tóquio e, depois de estudar na Inglaterra e aprimorar suas próprias habilidades, voltou ao Japão e montou um estúdio em Quioto, sua cidade natal. Isso significava que esteve morando em Quioto enquanto eu estudava em Tóquio. Mas ele havia morrido há sete anos, na primavera, e a propriedade de suas obras havia passado para a Galeria Yanagi, à qual havia se associado.

— A série intitulada como Trem da Noite possui, no total, 48 obras.

As paisagens, criadas apenas com o branco ofuscante contra um fundo de escuridão aveludada, traziam à mente uma noite sem fim. Cada uma das obras retratava uma mulher solitária. Em nenhuma havia olhos ou boca, e sua cabeça estava sempre inclinada como fosse a de um manequim. Onomichi. Ise. Nobeyama. Nara. Aizu. Okuhida. Matsumoto. Nagasaki. Aomori. Tenryūkyō.[10] Ao olhar as gravuras uma a uma, tive a estranha sensação de que todas retratavam a mesma noite, espalhando-se indefinidamente.

— Por quê Trem da Noite? — murmurei.

O proprietário sorriu e inclinou a cabeça.

— Talvez se refira a um trem comum… ou talvez, estivesse se referindo a um trem de demônios desfilando pela noite[11].

 

 

A pousada onde estávamos ficava às margens do Rio Kibune, entre uma fileira de outras pousadas, exigia uma simples viagem de dez minutos pela estrada da montanha no carro de cortesia da Estação Kibuneguchi. O quarto era dividido em dois por uma tela deslizante, preenchida com o som corrente do Rio Kibune e o cheiro familiar de tatame. O clamor de Kurama, além da montanha, não nos alcançava, e tudo ao nosso redor estava quieto.

Enquanto tomávamos banho e esperávamos Tanabe chegar, gotas de chuva começaram a cair do lado de fora. Takeda colocou a cabeça para fora da janela e olhou para o céu.

— Não cancelariam o festival por causa da chuva, não é?

— Eu não acho que um pouco de chuva seria o suficiente para cancelá-lo — riu Nakai, se esticando no tatame. — Tenho quase certeza de que as tochas ainda acendem mesmo na chuva.

Ouvimos passos ruidosos subindo as escadas.

— Sinto muito, sinto muito! — disse Tanabe ao entrar na sala, com a barba ainda por fazer. Ele parou na porta e olhou para todos nós. — Bem, olha só para todos vocês, relaxando. Vocês não sabem que estamos aqui para um festival?

Com nós cinco finalmente reunidos, nos agrupamos ao redor de um ensopado de javali enquanto a chuva caía cada vez mais forte. A pousada foi envolvida pelo barulho da chuva batendo nas calhas e pelo barulho de água correndo; o frio da aldeia na montanha penetrava pelas janelas de vidro e permeava o quarto.

— Está chovendo bastante — comentei, pressionando meu ouvido contra o vidro embaçado.

Nós nos divertimos muito ali, reunidos ao redor da panela quente. Eu ainda via Nakai em Tóquio de vez em quando, mas já fazia anos que não via nenhum dos outros. Agora estávamos todos trabalhando, seguindo com nossas próprias vidas. Embora tenhamos falado bastante sobre essas coisas, nenhum de nós tocou no tópico de Hasegawa. Era como se estivéssemos mantendo nosso sexto membro de fora.

Enquanto eu distraidamente ouvia a chuva, o rosto da mulher que havia entrado na galeria voltou à minha mente. Naquela hora, tive tanta certeza de que ela era a Hasegawa, mas depois seu rosto ficou borrado e incerto em minha memória.

— Você está terrivelmente quieto, Ōhashi — comentou Nakai do outro lado da panela. — Qual é a dessa cara?

— Esta tarde, pensei ter visto a Hasegawa… — murmurei.

O quarto caiu em um silêncio assustador na mesma hora.

— Digo, é claro que eu só estava vendo coisas — acrescentei com pressa. Afinal, quando a segui para a galeria, ela não estava em lugar nenhum.

Tentando aliviar a tensão, comecei a falar sobre os estranhos mezzotints que tinha visto por lá. Mas quando mencionei que eram de alguém chamado Kishida Michio, Tanabe me olhou surpreso.

— Você foi àquela galeria? Galeria Yanagi, certo?

— Sim, era assim que se chamava.

— Também fui lá. Deve que nos desencontramos por pouco.

— Eu não sabia que você gostava de galerias de arte, Tanabe.

— Bem, gosto um pouquinho.

E então Tanabe ficou em silêncio.

Ele parecia estar sendo evasivo, isso me pareceu estranho. Olhei para Takeda e Fujimura, que também pareciam saber algo sobre aquele artista.

Mas foi Nakai quem quebrou o silêncio.

— Eu também vi as gravuras dele. Estavam penduradas no saguão do hotel em que fiquei quando fui para Onomichi.

— Onomichi?

— Você já foi lá? É na prefeitura de Hiroshima.

— O que você foi fazer lá? Estava de férias? — perguntou Fujimura.

Nakai riu pesarosamente em resposta.

— Isso é meio complicado…

E então começou a relatar o que tinha acontecido em Onomichi. A chuva continuou a cair sobre a escura aldeia na montanha enquanto ouvíamos sua história.

 


Notas:

1 – É um festival anual que acontece no Monte Kurama, no Japão. É o mais famoso dos festivais de fogo de Quioto e também o mais excêntrico deles.
2 – A Estação fica a dois quilômetros e meio de Shijō Kawaramachi, que é uma das regiões centrais da cidade.
3 – A distância entre Shijō Kawaramachi e a Estação Demachiyanagi é de cerca de três quilômetros e meio.
4 – Área onde fica um grande templo e também a Universidade de Quioto.
5 – Suidobashi é uma região de Tóquio com muitas atrações turísticas, como o Museu do Espaço, Disneylândia de Tóquio e a Torre do Céu de Tóquio.
6 – A linha Eizan passa pelas estações de: Demachiyanagi, Mototanaka, Chayama, Ichijōji, Shūgakuin, Takaragaike, Miyakehachiman, Yase-Hieizanguchi. E também se subdivide para a linha Kurama, que passa pelas estações de: Hachiman-mae, Iwakura, Kino, Kyōto-Seikadai-mae, Nikenchaya, Ichihara, Ninose, Kibuneguchi e Kurama.
7 – Kibune é uma região próxima ao Monte Kurama, por onde passa o Rio Kubune e também há vários bosques nas cercanias.

8 – Cânion ou desfiladeiro urbano é um local com muitos edifícios, esse superdesenvolvimento local influencia na temperatura, umidade e propagação de sinais de rádio.
9 – Mezzotint é um método de impressão a seco, foi o primeiro a ser utilizado, permitindo a produção de meios-tons sem o uso de técnicas semelhantes à hachura.
10 – Cada uma dessas é uma cidade japonesa.
11 – Hyakki Yagyō (百 鬼 夜行), é uma procissão de demônios que sai à noite, espantando qualquer um que encontre.

 

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