Trem da Noite – Capítulo 01 – A Primeira Noite – Onomichi

 


 

— Eu fui para Onomichi há cinco anos. Foi em meados de maio, num fim de semana, e o clima dava a sensação de que já era verão — começou Nakai.

Como já mencionei, ele era um estudante de graduação quando frequentava a escola de inglês. Mesmo depois que parti de Quioto e perdi contato com todos os outros, foi a única pessoa com quem ainda mantive contato. Eu já até mesmo tinha ido ao seu apartamento, em Suidobashi, para jantar, e sua esposa já havia nos preparado outras refeições antes.

— O motivo de eu ter ido até lá foi para trazer minha esposa de volta. Ela… mudou.

O que se segue é a história de Nakai.

 

 

Tudo começou duas semanas antes de eu ir para Onomichi.

Quando voltei do trabalho, as luzes estavam apagadas e o corredor que dava acesso para a sala estava escuro como um túnel. Parecia tudo muito assustador. Minha esposa tinha acabado de deixar o emprego, então ficava em casa a maior parte do tempo e sempre me dizia se ia sair à noite. Mas não encontrei nada parecido com um bilhete na sala de estar.

Tentei ligar para ela, mas só chamava e chamava.

Espero que ela não tenha sofrido algum acidente, pensei enquanto sentia um arrepio, esperando até que, finalmente, alguém atendesse.

— Alô? — soou uma voz bem baixinha.

Uma onda de alívio passou por mim quando ouvi aquela voz, mas quando ela disse que foi para Onomichi, fiquei surpreso. Minha esposa me informou, parecendo nitidamente irritada, que havia deixado Tóquio à tarde e encontrado um alojamento em Onomichi.

— Vou ficar um pouco por aqui — falou.

Fiquei chocado. “O que você está fazendo aí?” perguntei, mas só ouvi o silêncio do outro lado da linha. Pressionando meu ouvido com mais força no telefone, ouvi um vago som de água pingando em uma pia.

Uma repentina onda de fúria nasceu dentro de mim. Eu tinha uma responsabilidade para com ela como seu marido. Como poderia simplesmente sair de casa sem dar sequer uma palavra de explicação? E o que eu deveria dizer caso meus sogros telefonassem?

Quando falei isso tudo, ela suspirou.

— Responsabilidade? Quem se importa com isso?

E então desligou.

Fiquei lá, estupefato, por um tempo, mas ao mesmo tempo outra parte de mim estava pensando: Eu sabia. Honestamente, comecei a sentir que algo estava errado em seu comportamento desde meados de abril.

Eu não conseguia definir exatamente o que era, mas de vez em quando uma expressão fria aparecia em seu rosto. Era como se ela não estivesse lá, e se eu tentasse perguntar qualquer coisa, minha esposa só daria algumas respostas vagas. Se a deixasse sozinha, ela eventualmente voltaria ao seu estado normal. Cada vez que eu perguntava se havia dito algo errado, ela apenas me olhava confusa. Eu não sabia se ela realmente não percebeu o que tinha acontecido, ou se só estava se fazendo de boba.

Ainda assim, havia algo que parecia muito errado naquele olhar frio em seu rosto. Por um momento, parecia que havia uma pessoa completamente diferente sentada ali. Perguntei se estava se sentindo bem, e a resposta foi uma simples alegação de que estava. Mas eu estava convencido de que devia haver uma razão para aquela expressão em seu rosto.

— Se algo está te incomodando, por que simplesmente não me diz?

Minha esposa parecia magoada por eu perguntar isso a ela.

— Se acha tanto que há algo de errado, será que não é com você o problema?

— Não é comigo!

— Mas como você tem tanta certeza disso?

Ela estava convicta de que o problema era comigo, e eu estava convencido do contrário. Quanto mais discutíamos sobre isso, mais ela se retraía em sua concha. Eu sabia que havia um problema, mas não conseguia entender qual realmente era. Isso me enfureceu infinitamente.

E assim foi, até que minha esposa saiu de casa.

No começo, fiquei furioso. Faça como quiser!, pensei. Mas depois de tirar algum tempo para me acalmar, comecei a refletir sobre a forma como havia agido. Pensando nisso com calma, minha esposa tinha razão. Por que me apressei tanto para interrogá-la daquele jeito? Eu não estava descontando minhas próprias frustrações nela?

Por duas semanas, ela e eu continuamos nossas conversas por telefone e comecei a sentir que o calor estava voltando à sua voz.

— Tenho dormido muito bem desde que vim para cá — contou-me. — Realmente acho que ter vindo para cá foi o melhor para nós dois.

— Talvez você esteja certa.

— Você, tente descansar um pouco também. Ultimamente você esteve meio estranho. Mas o que eu realmente recomendo é fazer uma viagem para algum lugar distante.

— Você vai ficar aí por mais quanto tempo?

— Não sei… Não quero apressar as coisas.

Minha esposa estava hospedada em uma casa na colina, ajudando em um armazém administrado por uma mulher que ela conhecia. Aparentemente, de seu quarto no segundo andar, tinha uma vista perfeita da cidade de Onomichi, bem como das ilhas no Mar Interior de Seto[1].

— Onde você a conheceu? — Sempre que eu perguntava sobre a mulher, minha esposa agia de forma evasiva. Isso me incomodou. Nunca tinha ouvido uma única palavra sobre ela conhecer alguém de Onomichi.

— Se você está tão preocupado, por que não vem aqui e vê por si mesmo?

— Você está de acordo com isso…?

— Você nunca veio aqui antes, não é?

— Acho que não. — Menti descaradamente.

 

 

Onomichi é uma cidade da prefeitura de Hiroshima que fica na costa do Mar Interior de Seto.

Saí dos portões de passageiros e entrei na praça fora da estação. Do outro lado da água, guindastes pairavam sobre os estaleiros de Mukaishima, e os barcos iam e vinham com as ondas do oceano. Eu nasci e cresci em uma cidade longe do mar, então senti que estava muito longe de casa.

Olhei para o oceano por mais um tempo, antes de cruzar os trilhos do trem da Linha Sanyō[2] e me dirigir para as colinas.

Minha esposa supostamente estava trabalhando em um armazém chamado “Companhia Brisa Mar”. A página da internet deles era extremamente rudimentar e, a julgar pelo calendário lá exposto, não era atualizada há muito tempo. Tive minhas dúvidas sobre a coisa continuar em funcionamento, mas só por precaução imprimi o mapa e o levei comigo.

O labirinto composto por ruas inclinadas já estava impregnado com a essência do verão.

Onomichi é uma cidade estranha. Vista à beira-mar, parece pequena, mas além das colinas há mais colinas, e cada caminho se ramifica em muitos outros menores. Quanto mais longe se vai, mais parece que está vagando por um labirinto.

Em meio a esse diorama[3] de becos passando por trás das casas, degraus de pedra cobertos de musgos e pontos de drenagem já antigos, apenas os pôsteres de campanha para as eleições da Câmara dos Representantes[4] se destacaram como estranhamente vibrantes.

— Foi sempre assim? — perguntei-me.

Ao contrário do que disse à minha esposa, eu já tinha ido a Onomichi uma vez. Foi durante as férias de verão na pós-graduação. Depois de ir para casa em Kyushu, desci do trem em Onomichi, no meu caminho de volta para a universidade, e passei meio dia vagando por aí. O Obon[5] tinha acabado de terminar e o calor estava sufocante. A luz do sol escaldante batia no longo caminho até a colina, e até mesmo a brisa do mar que balançava as árvores do Senkōji[6] estava seca. Era como estar sonhando acordado. Havia algo de surreal em minha memória daquela tarde de agosto, e estranhamente, embora eu estivesse de volta a Onomichi, nenhum sinal de nostalgia brotou dentro de mim.

Eu não tinha certeza se o mapa estava simplesmente mal feito ou se era apenas meu péssimo senso de direção, mas fui na direção errada e acabei pegando um caminho muito tortuoso. Depois de caminhar por cerca de vinte minutos, finalmente encontrei um caminho que estava marcado no mapa. Era uma estrada íngreme que passava por um cemitério. À direita havia um bosque de árvores e à esquerda as casas alinhadas, assim como uma escada gigante. Eu esperava fervorosamente não ter que continuar subindo ainda mais ao chegar no topo desta colina.

No meio do caminho me encontrei com um homem estranho.

Ele estava correndo colina abaixo. Quase batendo comigo, ele se conteve e parou, deixando a boca aberta de surpresa. Mesmo com aquele calor, ele usava um uniforme adequado a um concierge[7]. Seus olhos esbugalhados estavam arregalados e seu rosto estava todo molhado, parecia até que alguém tinha jogado água nele. Quando me inclinei um pouco e passei por ele, o homem virou o corpo para o lado e murmurou em voz baixa: “Com licença.” Seu cheiro era bem desagradável.

Depois de passarmos um pelo outro, me virei para ver o homem voltando a descer a colina. Era como se ele estivesse perseguindo algo, ou talvez fugindo de alguma coisa. Havia algo de impressionante naquela visão lamentável, e eu parei ali na encosta por um tempo, observando-o até que desaparecesse antes de retomar minha subida colina acima.

O armazém a que finalmente cheguei parecia quase deserto.

O prédio era uma casa com telhado azul e, ao lado da porta de correr de vidro fosco, havia uma placa de madeira entalhada que dizia: “Companhia Brisa Mar”. No entanto, não havia sinais de que alguém morasse lá. As telhas caídas estavam espalhadas no chão, e os vasos de plantas alinhados junto à porta estavam secos como o deserto. Estendi a mão e deslizei a porta destrancada com um estalo. Um cheiro de poeira saiu por ela. Lá dentro eu podia ver um corredor escuro e uma escada, mas francamente parecia mais uma gruta do que qualquer tipo de lugar onde humanos poderiam morar. De algum lugar lá no fundo, ouvi o vago som de água pingando em uma pia. Minha esposa realmente estava hospedada neste lugar?

— Alô? — chamei, apreensivo, sentido como se tivesse acabado de jogar uma pedra em um buraco muito profundo. — Alguém aí?

Apurei meus ouvidos e, finalmente, da escuridão no topo da escada, ouvi uma voz alegre responder:

— Estou indo!

Pés brancos e delicados desceram a escada de madeira gasta e um rosto familiar e com a pele pálida apareceu na escuridão. Minha esposa estava usando um vestido branco, ideal para o verão, que eu nunca tinha visto.

— Olá, estranha. Você não faz ideia de quantos problemas enfrentei para te encontrar — murmurei, de repente ficando envergonhado.

Mas ela só franziu a testa para mim.

— O que há de errado? — perguntei.

Minha esposa inclinou a cabeça interrogativamente e perguntou:

— Quem é você…?

 

 

Depois de conversar com a mulher na entrada, descobri que ela realmente não era minha esposa.

No entanto, a semelhança era tanta que não pude acreditar que fosse pura coincidência. Talvez fossem parentes de sangue de algum grau.

Mas a mulher disse que não sabia nada sobre minha esposa. Na verdade, o local não estava mais funcionando.

— Fechou já faz cerca de meio ano — disse ela.

Fiquei bastante surpreso quando ouvi isso.

— Realmente nos parecemos tanto assim, sua esposa e eu? — Ela soltou uma risadinha. Não parecia estar duvidando da minha história.

Pelo visto, era a dirigente da Companhia Brisa Mar, vendendo produtos feitos à mão. Seu marido trabalhava em um hotel perto da estação, e ela decidiu abrir a loja para obter uma renda extra, embora poucos clientes aparecessem. Quando ouvi isso, não pude deixar de pensar no concierge que encontrei enquanto estava subindo a colina.

Nada disso batia com o que minha esposa havia descrito.

— Tenho quase certeza de que esta é a única Companhia Brisa Mar por aqui — disse a mulher.

Tentei ligar para minha esposa, mas o telefone dela estava desligado.

— Sua esposa já passou por aqui antes?

— Não sei.

— Que engraçado.

— Bem, olha, me desculpe por fazer esse rebuliço todo.

— Espere — disse a mulher quando me virei para ir embora. — Já que você está aqui, por que não dá uma olhada nas minhas mercadorias? Ainda tem um monte de coisas.

Ela levemente segurou o meu braço.

— Sei que está tudo uma bagunça, mas por que não confere?

A maneira viva como suas palavras soaram pareciam com os modos da minha esposa. O fluxo me levou e, antes que eu percebesse, estava entrando pela porta da frente.

Calcei os chinelos e caminhei pelo corredor escuro, chegando a uma sala de jantar. Além dela, havia um quarto de dez tatames[8] contendo uma cômoda e uma televisão. As portas da varanda do jardim foram deixadas abertas. Em contraste com o resto da casa, este cômodo era claro, como um banco de areia erguendo-se no meio da escuridão. Lá em cima, na colina, tive uma vista deslumbrante da cidade e do mar além das azaleias florescendo.

— Sinto muito, está uma bagunça só — disse ela, não parecendo particularmente abalada. — Uau, você realmente suou um bocado! Deixe-me pegar algo para você beber.

Fiquei sentado na sala enquanto bebia um chá de cevada morno.

— É a sua primeira vez em Onomichi?

— Aham, isso mesmo.

Por algum motivo, acabei contando a mesma mentira de novo.

A mulher pegou uma caixa de papelão e colocou algumas coisas na minha frente, para que eu pudesse ver tudo. Todos os artesanatos eram simples e com poucos detalhes, o tipo de coisas que poderia se encontrar no mercado de pulgas[9] aos sábados: bases para copos em forma de flores, sacolas de compras, e tudo com uma etiqueta de preço desbotada grudada.

— É tudo muito fofo. — Consegui dizer.

— Que tal um presente para sua esposa? — A mulher tentou me persuadir enquanto olhava para o meu rosto.

A semelhança com minha esposa era muito estranha. A maneira como ela franziu as sobrancelhas enquanto servia o chá de cevada, a maneira como seus olhos se voltavam para olhar meu rosto, era tudo exatamente igual. Parecia que minha esposa tinha ido comigo para Onomichi e tínhamos entrado em uma velha casa para fingir que era hora do chá. Eu não poderia ter esquecido como minha esposa parecia depois de apenas duas semanas. Talvez ela realmente fosse minha esposa, fingindo ser outra pessoa para me testar. Era assim que as coisas pareciam ser.

Mas eu não disse nada e, por sugestão dela, comprei um broche.

— Ah, não, estou sem troco!

— Tudo bem — falei, balançando a mão.

— Sinto muito. — Ela se desculpou adotando um tom ideal para bajulações.

Mantivemos uma conversa fútil por algum tempo.

— Esta casa parece ter muita história.

A mulher olhou ao redor da sala.

— É por isso que podemos pagar um aluguel tão barato. Sorte a nossa, sério.

Ela me disse que esta casa pertencera a um casal de idosos. Depois que o marido faleceu, a esposa foi morar com a filha casada em Mukaishima[10] e alugou a velha casa. A senhora ainda estava bastante saudável e às vezes pegava um barco da ilha para inspecionar a casa. Sempre que começavam a papear na hora do chá, ela mencionaria a sua neta. Pelo visto, quando ela ainda morava nesta casa, sua neta, que estava no colégio, muitas vezes ia de Mukaishima até o local para brincar. Para a velha, essa era uma memória querida e inesquecível.

— Ela sempre conta a mesma história. É quase como se o tempo tivesse parado.

— É o que acontece quando os anos começam a chegar.

— Às vezes acho que o tempo também pode parar para mim.

De repente, ela se virou para a varanda, ouvindo com atenção.

— Ei, você ouviu isso?

— Ouvi o que?

— Há um trem passando.

E assim como ela disse, pude sentir a reverberação fraca de um trem à distância.

— À noite apago as luzes do segundo andar e abro a janela. Assim consigo ver as luzes dos trens correndo ao longo do oceano. É lindo. Às vezes, trens de carga também passam, sem nenhuma luz… e isso é meio assustador.

— Tenho certeza de que a vista daqui à noite deve ser incrível.

Abaixando a voz de forma conspiratória, a mulher sussurrou:

— Eu fico principalmente no segundo andar.

— Por quê?

— Sempre que saio sozinha, meu marido fica furioso. Ele faz cara feia sempre que me vê descendo ao primeiro andar. Foi, em parte, por isso que tive que fechar a loja. Sempre que o vejo voltando do trabalho, corro e me escondo no segundo andar e tento não respirar de um jeito muito barulhento.

No começo eu pensei que ela estava brincando, mas seu rosto estava mortalmente sério. Foi uma história estranha e, sentindo-me muito inquieto, não disse nada.

Percebi outro som estranho. Era o som de água borbulhando, como alguém gargarejando com água na boca.

— Você ouviu esse som engraçado?

— Som engraçado? — Ela de repente ficou de joelhos e olhou para as azaleias no jardim. Sua expressão era como uma máscara e, ao ver aquele olhar, fiquei muito desconfortável. Era o mesmo olhar que me incomodava desde abril, o mesmo olhar que eu tinha visto no rosto de minha esposa.

— Com licença, só por um segundo — murmurou a mulher, levantando-se e saindo da sala. Em um momento eu ouvi um rangido vindo da escada para o segundo andar. Os passos eram pesados, como se pertencessem a algum tipo de monstro. Enquanto ouvia, os passos cessaram de repente e a casa ficou em silêncio.

Passei o tempo admirando as azaleias.

Mas não importa o quanto eu esperava, a mulher não voltava.

Depois de quinze minutos, cansei de esperar e levei a bandeja de chá para a sala de jantar. A mesa era grande o suficiente para acomodar quatro pessoas e estava coberta com uma toalha suja que tinha uma grande mancha marrom. O protetor da lâmpada pendurada no teto estava coberta de poeira. Apesar disso, o armário ao longo da parede ainda estava cheio de pratos e tigelas. Ao lado do armário havia um telefone preto antigo. Quando tentei lavar um copo, porém, percebi que a pia enferrujada também estava coberta de poeira e completamente seca, e quando abri a torneira nem uma gota de água saiu. Um arrepio de horror percorreu meu corpo.

— Ninguém poderia estar morando aqui!

Fui andando pelo corredor, sempre nas pontas dos pés, até chegar na entrada da frente.

A escada para o segundo andar dobrava para a direita e as paredes revestidas de madeira foram engolidas pela luz fraca. Gritei, mas nenhuma resposta soou, foi como se estivesse lançando minha voz em um vazio sem fundo. O que ela estava fazendo lá? Na verdade, ela existia mesmo? O lugar estava completamente silencioso, como se eu tivesse estado sozinho o tempo todo.

Foi naquele momento que de repente despertei para o quão podre esta casa realmente era.

 

 

Fugi de lá e continuei subindo a encosta. Depois de me distanciar um pouco, me virei e vi a casa de telhado azul. Parte do telhado desabou, curvando-se para dentro e ficando como um ninho de formigas-leão, e no meio daquilo havia um buraco negro. A visão me enojou; eu nunca tinha visto nada parecido. Continuei andando e dessa vez não olhei para trás. Já eram quatro e meia.

O caminho levava ao Parque Senkōji. As azaleias do parque estavam em plena floração e o vento soprava nas folhas verdes das árvores. O crepúsculo estava subindo ao céu sobre o museu de arte da cidade, com uma aparência moderna, e o restaurante adjacente. Neste local havia vários turistas e senti que finalmente havia retornado à realidade.

Entrei no restaurante da colina e pedi uma xícara de café.

Voltei a ligar para a minha esposa, mas o telefone dela ainda estava desligado. Simplesmente não fazia sentido. Por que ela desligaria propositalmente o telefone no fim de semana em que sabia que eu viria? Será que estava tentando me evitar? No entanto, foi ela quem me chamou para uma visita. Onde poderia estar? Se não conseguisse fazer um telefonema, eu estaria perdido.

— Não foi assim naquele verão também? — Lembrei-me do que acontecera cinco anos atrás. Naquele verão, visitei Onomichi e bebi café neste mesmo restaurante e esperei por alguém que não consegui contatar.

Essa pessoa era Hasegawa.

Pouco antes das férias de verão, um dia eu e Hasegawa começamos a conversar depois da aula de inglês. Ela mencionou que era de Mukaishima e que seus avós moravam em uma casa em Onomichi. Suas histórias me fascinaram: a maneira como Onomichi parecia uma ilha misteriosa vista do cais de Mukaishima, como a cidade velha de Onomichi era como um labirinto e assim por diante. Decidi parar por Onomichi enquanto estava fazendo meu caminho de Kyushu em retorno a Quioto. Hasegawa também me disse que voltaria para casa por causa do Obon.

— Se você estiver livre, por que não saímos para tomar chá? — Sugeri.

— Claro! — Ela concordou alegremente.

Liguei para Hasegawa na manhã em que saí de Kyushu e fizemos planos para nos encontrar no restaurante no Parque Senkōji. Mas depois que cheguei em Onomichi e fui ao restaurante, Hasegawa não apareceu. Liguei para ela, mas ninguém atendeu. Mais tarde, soube que ela havia esquecido o telefone em casa. Ela estava ajudando na casa dos avós quando percebeu que estava atrasada para nosso compromisso. Se esquecer das coisas assim não era um de seus costumes.

Ela se desculpou muito quando finalmente chegou, trinta minutos atrasada. A mulher havia corrido todo o caminho até o lugar sob o sol escaldante e estava encharcada de suor, como se tivesse acabado de trabalhar no campo. Enquanto se enxugava com uma toalha, toda desanimada, pensei comigo mesmo que ela parecia muito diferente da confiável Hasegawa que eu estava acostumada a ver nas aulas nas noites de sexta-feira.

— Sinto muito — continuou se desculpando. De alguma forma, toda a novidade me deixou feliz.

— Ei, não esquenta. Não é como se eu tivesse algo melhor para fazer hoje.

— Como pude ser tão estúpida!

— Você provavelmente só estava relaxando, de volta em casa. Acontece.

— Mas ainda assim, eu realmente sinto muito. Nunca mais, eu prometo! — disse ela, sorrindo como uma garotinha.

Conversamos um pouco no restaurante antes de sair para dar uma volta em Senkōji. Do templo, olhamos para a cidade abaixo de nós e vimos os bondinhos cheios de turistas subirem e descerem pelo teleférico. Cigarras vibravam na exuberante folhagem de verão abaixo.

Hasegawa sentou-se em um banco ao lado da torre do sino e disse:

— Meio que faz você se sentir pequeno, não é? — Havia um leve toque de petulância em sua voz. Aqui, em sua cidade natal, sob o calor sufocante, ela parecia mais solta do que em qualquer vez que eu já tinha a visto em Quioto.

— Você mora em Mukaishima, certo?

Em resposta, ela ergueu um braço magro e apontou para a ilha.

— Bem ali. Por onde passa a balsa.

— E como é?

— É como qualquer subúrbio velho.

Depois de sentar no banco por um tempo admirando a vista do oceano, nós lentamente descemos a longa encosta de Senkōji. Hasegawa me acompanhou até os portões da estação Onomichi.

— Te vejo em setembro! — disse ela. A visão dela parada do outro lado dos portões passou por minha mente por todo o caminho até chegar a Quioto.

Isso aconteceu dois meses antes de ela desaparecer.

Eu havia passado por dificuldades para superar seu desaparecimento, o que tornou ainda mais insuportável foi que eu não fazia ideia do que havia acontecido naquela noite em Kurama. Foi tão doloroso que fiz todo o possível para esquecer tudo que envolvia ela, incluindo aquela noite em Kurama e minha visita anterior a Onomichi.

Cinco anos depois, ali estava eu novamente em Onomichi. Lembrar de Hasegawa estava fazendo minha mente percorrer todos os tipos de caminhos sombrios. Ela e minha esposa sempre foram muito parecidas. Se o buraco que engoliu Hasegawa ainda estivesse aberto, então talvez também tivesse engolido minha esposa…

Não seja estúpido! Perturbado, tirei esses pensamentos da cabeça.

Pagando minha conta e saindo do restaurante, segui pelo portão principal de Senkōji e desci a colina. Era o mesmo caminho que Hasegawa e eu havíamos trilhado. Estandartes vermelhos e azuis tremulavam ao longo da grade de proteção, cada um levando uma súplica a Kannon Mil-Braços[11]. Abaixo de mim, vi a cidade, com novos brotos de folhagens surgindo entre os telhados das casas e templos. O Mar Interior de Seto cintilava prateado sob a intensa luz do sol, e a silhueta das ilhas distantes estava nebulosa e borrada.

Parecia uma cena de um sonho.

 

 

Peguei o teleférico descendo a montanha, depois caminhei pelo distrito comercial em direção ao meu hotel. Eu não planejava desistir antes de falar com minha esposa.

O hotel ficava ao longo de um trecho do centro da cidade, construído ao longo da Linha Sanyō, em um pequeno recanto cercado por bares e lanchonetes vazios. Os trilhos do trem corriam bem atrás do hotel sombrio, e os trens de carga rugiam interminavelmente.

O saguão estava deserto e não havia ninguém na recepção. Em frente à mesa, havia um carrinho com uma pilha alta de especialidades locais, como kamaboko[12] e alimentos secos, bem como uma variedade de produtos artesanais. Todas as etiquetas de preço desbotadas diziam “Companhia Brisa Mar”.

Continuei chamando, mas o concierge não apareceu, então desisti e me sentei no sofá.

Ao lado do sofá havia um vaso de planta, mas como a maioria de suas folhas eram pretas e já tinham caído, sua presença só deixava o saguão ainda mais sombrio. O efeito foi intensificado pelas paisagens sombrias e temperamentais penduradas na parede. Entre elas, uma parecia até um buraco negro.

Voltei a me levantar do sofá e me aproximei.

Parecia ser uma gravura em placa de cobre. Abaixo havia uma placa branca com o título e o nome do artista escritos em marcador mágico: Trem da Noite —— Onomichi, de Kishida Michio. Era composto inteiramente de branco em um relevo contra um fundo preto aveludado, representando um caminho ascendente passando por uma fileira de casas às escuras. No meio do caminho, uma única lanterna queimava e sob sua luz estava uma mulher sem rosto, acenando com a mão direita, como se me chamasse. Olhar para aquilo me fez sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da imagem, e por razões que eu não entendia era perturbador e, ainda, de alguma forma familiar.

— Gostou? — disse uma voz atrás de mim.

Era o concierge. Usando um uniforme que lembrava um tapete vermelho mofado, ele olhou atentamente para o meu rosto com seus olhos esbugalhados. Seu rosto estava molhado de suor. Logo percebi que este não era outro senão o homem por quem havia passado antes, lá na colina.

— É uma peça muito marcante. Eu também fiquei intrigado com isso, desde que foi pendurado neste saguão. — E nesse ponto ele pareceu voltar a si mesmo. — Peço desculpas pela espera. Por aqui, por favor.

Enquanto ele me registrava, de vez em quando olhava para o meu rosto.

— Você vem a Onomichi com frequência?

— Não, esta é minha primeira vez. — Voltei a mentir.

— Peço perdão — disse ele, baixando o olhar novamente. — Tive a sensação de que já tinha visto você em algum lugar…

— Provavelmente me viu quando nos cruzamos mais cedo. Eu vi você correndo colina abaixo.

O concierge deu um breve aceno com a cabeça.

— Entendo. Então foi isso.

Apontei para o carrinho na frente da mesa.

— Esses artesanatos aí são de uma loja local da colina?

— Isso, exatamente. Minha esposa tinha uma loja, era uma espécie de hobby.

Então a mulher daquela casa realmente existia. De repente, fiquei com vergonha de mim mesmo por ter saído correndo de lá como se tivesse visto um fantasma. Mas ainda não conseguia acreditar que alguém pudesse morar naquela casa na colina.

— Visitei a loja há pouco tempo.

— Ah, é mesmo?

— Receio ter sido muito rude com sua esposa. Acabei saindo sem nem me despedir…

Ao ouvir minhas desculpas, o concierge franziu a testa para mim.

— Minha esposa?

— Sim, eu a encontrei em sua casa.

— Não tem ninguém naquela casa…

— Ah, vamos lá. Ela estava me mostrando todos os seus artesanatos.

O concierge olhou para mim com aqueles olhos esbugalhados. Era um olhar enervante, parecia até que eu estava olhando para uma gruta profunda.

— Não há ninguém naquela casa — repetiu, forçando as palavras. Ele parecia estar com medo de alguma coisa. A luz refletida no brilho do suor o fez parecer encharcado, e seu odor desagradável fez meu nariz formigar. — Minha esposa se foi. Eu sou o único que mora naquele local.

O tom de sua voz me deixou inquieto.

— Então devo ter me enganado…

— Sim, deve ter. Tenho certeza disso — respondeu ele rapidamente, olhando de perto para o meu rosto pálido.

 

 

O ar estava quente e abafado dentro do estreito quarto do hotel. O papel de parede estava desbotado e a mobília fora de moda.

Tomei um banho para lavar o suor e me sentei na cama, exausto, como se tivesse acabado de fazer uma caminhada pelas montanhas. Então, novamente, eu tinha acabado de subir e descer as colinas desta cidade sob o sol do início do verão.

Tirei o broche da minha bolsa e olhei para ele. Estava dentro de um pacotinho transparente, com um adesivo que dizia “Companhia Brisa Mar”. Eu o havia comprado da mulher daquela casa na colina, então era a única prova irrefutável que eu tinha do que havia acontecido lá.

Ainda assim, nada fazia sentido desde que cheguei a Onomichi. Uma mulher que vivia em uma casa em ruínas em uma colina, que se parecia tanto com minha esposa que poderiam ser gêmeas. Seu marido, que insistia que não havia ninguém naquela casa. E minha esposa, em torno de quem tudo isso girava, que ainda continuava inacessível e cuja localização eu ainda não conhecia.

Voltei a ligar para ela, mas seu telefone ainda estava desligado.

Deitado na cama, encarei o teto manchado e tentei me lembrar de como minha esposa era em Tóquio. Mas não adiantou: Por algum motivo, tudo em que consegui pensar foi no rosto da mulher naquela casa e no modo como ela agiu.

Talvez realmente fosse a minha esposa, pensei comigo mesmo.

Há duas semanas minha esposa morava naquela casa. Então por que o concierge teria me contado uma mentira tão ridícula quando disse que não havia ninguém lá? Por que ele tentaria turvar as águas dessa forma? Ele tinha que estar escondendo algo. E da mesma forma, minha esposa também devia estar escondendo algo. Essa era a única maneira de tudo fazer sentido.

Uma vez que esse pensamento passou pela minha mente, não pude mais aguentar.

Levantei-me e abri a cortina pesada, olhando para a Linha Sanyō que passava atrás do hotel. Enquanto olhava para os trilhos do trem, lembrei-me de uma vez em que minha esposa e eu tomamos um trem da noite. Foi no início de abril daquele ano, e, no caminho de Kyushu para Tóquio, devemos ter passado pelos trilhos que ficavam abaixo da minha janela, acelerando na calada da noite.

Estávamos voltando de um serviço memorial budista em Kyushu. Foram momentos agradáveis e minha esposa estava de bom humor, assim como o normal.

— Quero sentir que realmente estamos viajando! — Ela me implorou, então pegamos o trem da noite.

Naquela noite, apagamos as luzes de nossa cabine e olhamos para o céu noturno pela janela. Silhuetas de montanhas negras e luzes solitárias de vilarejos passavam, e cada vez que passávamos por outra estação desconhecida, o rosto de minha esposa era banhado por uma luz pálida. Enquanto ouvíamos o barulho das rodas nas juntas dos trilhos, era como se estivéssemos passando pelas entranhas da noite.

Olhando para as ruas solitárias que passavam, minha esposa disse:

— Parece que o amanhecer não vai chegar nunca.

Agora, essas palavras pareciam um presságio do que estava por vir.

 

 

Aconteceu cerca de uma semana depois de voltarmos naquele trem da noite de Kyushu.

Voltei para casa bem tarde e descobri que minha esposa já tinha ido para a cama. Fazendo o mínimo de som possível, tomei banho e me deitei suavemente ao seu lado.

Enquanto eu estava dormindo, fui repentinamente assaltado pela sensação de meu rosto sendo empurrado para uma bacia cheia de água. Lutando para respirar, tentei resistir a seja lá o que quer que fosse antes de me sentar no futon, ofegando no quarto iluminado.

Olhei para minha esposa ao meu lado. Ela estava dormindo como uma boneca e seus olhos estavam bem fechados, mas eu podia ouvir um som estranho vindo de seus lábios. Sua língua parecia estar estalando em sua boca, fazendo um som como o de água pingando. Devia ter sido aquilo que causou meu sonho.

Ouvindo atentamente, notei que, entre os estalos de sua língua, podia ouvir sons que se assemelhavam a palavras. Ela parecia estar falando com alguém em seu sonho. As palavras ficaram gradualmente mais altas, quase como se ela estivesse xingando alguém, e eu senti uma pressão repentina tomar conta do quarto.

— Ei, tudo bem? — falei, colocando a mão em seu ombro.

Na mesma hora ela rosnou como uma fera e se sentou, estendendo a mão para me agarrar. O olhar em seu rosto era o de uma pessoa completamente diferente. Com um suspiro, recuperou os sentidos e se recostou, em choque, olhando para o meu rosto, sem piscar. Ficamos sentados ali por um tempo, nos braços um do outro, em total descrença. Finalmente minha esposa suspirou e cobriu o rosto com as duas mãos.

— Eu estava tendo um sonho terrível!

O sonho foi assim:

Ela estava sentada em um cômodo de seis tatames, iluminado por uma pequena lâmpada. O cômodo estava vazio como uma cela de prisão, contendo apenas uma pequena escrivaninha e uma grande pia.

Sentiu que devia sair daquele lugar, e rápido. Ainda impaciente para sair do lugar, descobriu que estava incapaz de se mover.

Ela ficou sentada no tatame com o olhar fixo em uma tela deslizante que estava entreaberta. Além dela, podia ver uma escada que descia, o que devia significar que estava no segundo andar de uma casa. Para sair, precisava descer as escadas, mas havia algo assustador em olhar para aquela escada, e ela não conseguia se levantar.

Em pouco tempo, ouviu o som de alguém subindo lentamente as escadas, de quatro. Foi um som horrível, prolongado, o som de alguém batendo e esfregando as mãos e os pés a cada passo, uma vez atrás da outra. Minha esposa se arrastou laboriosamente para o lado da escrivaninha. Ela sabia que não adiantava se esconder. Então, o som horrível parou abruptamente e o silêncio da noite abafou o quarto.

Ninguém apareceu.

E ela deixou um suspiro de alívio escapar.

Mas, no momento seguinte, percebeu que alguém a estava observando da escuridão da escada.

A pessoa estava olhando diretamente para ela, com apenas sua cabeça visível acima dos degraus superiores. O rosto daquilo parecia brilhante e lustroso, parecia até que estava pingando água. Minha esposa soltou um grito de terror, mas a expressão da pessoa não mudou, e apenas inclinou a cabeça para o lado e continuou a olhar.

— Aquele rosto… era exatamente igual ao seu! — disse ela, antes de ficar quieta. Depois desse incidente, começou a ter pesadelos frequentes. Muitas vezes fui acordado pelo som de seus gemidos no meio dos sonhos. Mas ela nunca mais falou sobre o que viu naqueles pesadelos.

Sugeri que o assunto desconhecido sobre o qual se recusava a falar era o que estava lhe causando esses sonhos. Mas a visão dela era exatamente oposta à minha. Ela disse que era porque eu estava sempre falando sobre esse absurdo que estava tendo pesadelos.

 

 

Por fim, adormeci na cama.

Quando acordei, estava escuro do lado de fora da janela e lutei por alguns segundos para lembrar onde estava. Certo, o hotel em Onomichi. Acendi as luzes e olhei para o relógio, cujos ponteiros passavam das 19 horas. O cochilo tinha me deixado um pouco mais calmo.

Meu telefone tocou. Esperava que fosse a minha esposa, mas não reconheci o número e, quando atendi, ficou tudo mudo.

— Quem é? — perguntei, impaciente.

Mas não desliguei na mesma hora. Tive a sensação de que era minha esposa que estava do outro lado da linha, sem falar. Por algum motivo, imaginei-a sentada no tatame em um quarto escuro em algum lugar com as venezianas fechadas. Talvez eu estivesse apenas me lembrando do sonho que ela teve. Finalmente, do alto-falante, ouvi um sussurro fraco e petrificado.

— Sou eu. Nos conhecemos esta tarde… você se lembra?

— Na Companhia Brisa Mar?

— Sim. Era eu.

Era a esposa do concierge. Não conseguia imaginar minha esposa fingindo ser outra pessoa ao telefone.

— Preciso de sua ajuda.

— O que você quer dizer? Ajuda com o que?

— Estou com medo do meu marido — sussurrou ela. — Fiquei trancada no segundo andar esse tempo todo.

— Mas isso é…

— Pode me ajudar?

— Por que está pedindo para mim?

— Porque sinto que posso confiar em você.

— Se você sente que está em perigo, então deve ir à polícia. Não quero ser rude, mas não acho que posso ajudar com isso.

— Então você vai fugir?

— Isso não tem nada a ver com fugir ou não fugir.

— Preciso da sua ajuda… Tem que ser você.

Enquanto ela dizia essas palavras, ouvi uma batida à minha porta.

— Só um segundo. Alguém está à minha porta.

— É o meu marido.

— Com certeza não é…

Fui até a porta e olhei pelo olho mágico.

Parado no corredor estava o concierge. Ele estava tão perto da porta, praticamente grudado nela, e o efeito olho de peixe do olho mágico fez sua cabeça se projetar para fora como uma espécie de monstro medonho. Seu cabelo ralo estava todo grudado por causa do suor. Ele parecia estar a ponto de chorar, e estava batendo na porta com a cabeça, produzindo um som surdo com as batidas. Qual era o problema dele? Empurrei a porta com a mão esquerda, prendendo a respiração enquanto continuava a olhar pelo olho mágico.

Ao telefone, a mulher disse:

— Alô? Está tudo bem?

Ela devia ter ligado do segundo andar daquela casa na colina. A escuridão daquele lugar estava sendo quase transmitida pela voz. De repente, congelei.

Como ela sabia o meu número?

No final das contas, só podia ser a minha esposa. Isso tinha que ser algum tipo de esquema dela, fingindo ser uma estranha. Mas não adiantava tentar discutir pelo telefone. Eu precisava encontrá-la cara a cara e colocar isso em pratos limpos.

No tom mais calmo que consegui reunir, perguntei:

— O que você quer que eu faça?

— Há um restaurante de sushi chamado Kitsune, no centro, perto da estação. Vá lá e espere por mim. Vou descer a colina.

— Pode deixar. Estarei lá.

Desliguei o telefone e voltei a olhar pelo olho mágico, mas o concierge já tinha sumido. Me vesti e cautelosamente saí do quarto, então atravessei o corredor e desci o elevador sem ver qualquer sinal dele.

O saguão do primeiro andar estava escuro e silencioso, e apenas as luzes da recepção continuavam acesas. Ao cruzar o saguão, o telefone da mesa começou a tocar, mas o concierge ainda assim não apareceu. Tive a sensação de que o telefone tocando era um sinal muito sinistro.

Meus olhos pousaram na gravura em placa de cobre pendurada na parede.

Não sei se os humanos veem as coisas de maneira diferente à noite, mas algo mudou na gravura. Apareceu algo que eu não tinha visto ali durante o dia, era como se aquilo tivesse sido pintado com tinta invisível.

No topo da encosta, notei uma casa. Parecia exatamente com aquela casa na colina, e em uma janela escura no segundo andar havia algo que lembrava o formato de uma pessoa. Aproximei meu rosto, mas não consegui decifrar o que era. Talvez não fosse nada mais do que uma mancha acidental.

 

 

O centro de Onomichi é uma galeria comercial antiquada e ultrapassada que se estende ao longo dos trilhos da Linha Sanyō. A maioria das lojas já estava fechada durante a noite, e passei apenas por um punhado de pessoas no caminho.

Fui andando, consciente dos meus passos ecoantes, até que vi uma placa à minha esquerda que dizia “Kitsune”. A fachada da loja era muito estreita e o interior muito profundo. Sentei-me na seção de tatames e pedi sashimi e cerveja. O relógio indicava que passava das oito.

Algum tempo se passou e minha esposa ainda não apareceu.

Bebi minha cerveja e esperei. É claro que eu estava com raiva, mas parte de mim estava secretamente aliviada. Tinha sido muito irritante ser arrastado para um lado e para o outro e ter que tatear meu caminho pela névoa, mas agora eu conseguia organizar meus pensamentos. Não sabia que série de eventos uniu minha esposa e o concierge, mas agora era evidente para mim onde estava o problema que eu precisava resolver.

Enquanto bebia sozinho, a porta foi aberta com um estalo.

— Boa noite — disse o recepcionista.

Olhei para lá e meu humor azedou na mesma hora.

Parado ali estava o concierge. Seus olhos grandes e esbugalhados se fixaram em mim e ele se aproximou e se sentou de pernas cruzadas na minha frente.

— Obrigado por esperar.

— Eu não estava esperando por você.

Fizemos uma careta um para o outro, sem dizer uma palavra. Era como se olhar no espelho. Sem avisar, ele estendeu a mão e pegou meu copo, encheu-o de cerveja e bebeu de uma só vez.

— Você não está no expediente? — perguntei. — Tem certeza que deveria beber?

— Isso não é motivo para preocupação — respondeu ele, limpando a boca e expirando.

O que o homem estava fazendo ali? Minha esposa disse a ele para ir conversar comigo? Ele parecia estar esgotado. Mas quanto mais eu o observava, mais provável parecia que não era de mim que ele tinha medo. De vez em quando, o homem olhava por cima do ombro, de olho em quem passava na rua. Era como se fosse algum tipo de fugitivo no meio da fuga.

Depois de esvaziar o copo, o concierge não disse nada.

Impaciente, pressionei-o:

— O que está acontecendo entre você e ela?

— Ela? Ela quem?

— Minha esposa!

O homem suspirou.

— Não conheço a sua esposa.

— Você está me dizendo que não há nada de suspeito acontecendo?

— Posso te pedir para falar mais baixo? Por favor?

As mesas sobre o tatame e o balcão estavam lotados, mas, de alguma forma, o salão estava muito silencioso, era como se todos estivessem ouvindo nossa conversa. O garçom colocou outro copo e uma garrafa de cerveja na frente do concierge, que se serviu de outra bebida antes de se inclinar e sussurrar:

— Tem certeza de que não cometeu algum tipo de erro?

O tom pacificador com que ele disse isso me irritou.

— Então, por que está aqui?

— Estava preocupado com você.

— Você estava na frente da minha porta antes, não estava?

— E você fingiu não notar? Foi muito gentil da sua parte. — Seu rosto assumiu uma expressão meio sorridente e meio chorosa.

Minha paciência estava se esgotando. O homem só estava falando coisas sem sentido e me fazendo passar por tolo.

— Vamos chegar ao fundo disso agora!

— Claro, certamente.

— Não há ninguém naquela casa. Foi isso que você disse, não foi?

— Sim. Não poderia haver ninguém lá.

— Então quem é a mulher que esteve escondida lá nas últimas duas semanas? Não tente mentir para mim.

— É isso, é exatamente isso — disse o concierge, parecendo agitado. — É exatamente por isso que estou aqui.

— Então fale logo!

— Permita-me perguntar uma coisa. Você realmente a viu?

— Vi…

— A mulher no segundo andar.

— É claro. Ela é minha esposa.

— Vamos lá, isso é completamente ridículo… — Ele gargalhou, e sua risada irritou meus ouvidos.

Mas seu rosto estava mortalmente pálido.

 

 

O concierge bebeu sua cerveja enquanto me regalava com sua história.

— Mudamos para aquela casa há três anos.

Os detalhes condiziam com o que a esposa do concierge me contara naquela casa na colina durante o dia. Ele trabalhava no hotel próximo à estação, enquanto ela cuidava da loja que tinha aberto em sua casa.

Por um tempo, suas vidas transcorreram sem intercorrências. Mas no ano passado o concierge ficou preocupado com o comportamento dela. Alguns dias ela abria a loja, outros dias não. E quando ele não estava lá, a mulher frequentemente ia a algum lugar.

— Achei estranho.

— Você tinha alguma prova de que algo esquisito estava acontecendo?

— Nenhuma. Mas eu sabia. Afinal, éramos um casal.

Talvez alugar aquela casa velha tenha sido um erro. Tudo estava sempre coberto de poeira e havia um som constante de gotejamento que emanava de algum lugar lá dentro. Um cheiro podre impregnava o ar, mas quando o concierge mencionou como tudo era estranho, sua esposa não quis ouvir falar nisso.

— É só você que está sendo estranho — dizia ela com desdém, o que os levava a discutir cada vez mais.

Quando ficava com raiva, sua esposa se trancava no segundo andar e se recusava a descer, não importa o quanto ele implorasse. E, quando voltava do trabalho, normalmente encontrava a casa às escuras. Ele subia as escadas de quatro para encontrar sua esposa no quarto do segundo andar com todas as venezianas fechadas. Mas pelo menos saber que ela estava em casa lhe fornecia um pouco de paz de espírito.

— Mas em abril… — A voz do concierge vacilou. — Uma noite eu disse a ela que não voltaria para casa. Mas bem tarde daquela noite eu voltei sorrateiramente. Eu precisava ter certeza. Dei a volta na varanda dos fundos e, quando entrei, ouvi alguém andando no andar de cima. Não soava como os passos da minha esposa. Subi as escadas bem devagar e ouvi ela conversando com alguém.

Mas quando o concierge espiou pela porta, as vozes e os passos cessaram. A sala tremeluziu com a iluminação da pequena lâmpada. Sua esposa estava encolhida na sombra da escrivaninha, próxima à parede, olhando para ele, imóvel. Havia um brilho estranho em seus olhos.

— Tinha alguém aqui? Eu ouvi vozes.

— Claro que não — disse sua ela, deixando escapar uma gargalhada. — Este lugar está vazio. — Essas palavras enviaram um tremor através do concierge.

Sua esposa saltou repentinamente das sombras, empurrando-o para o lado, e desceu as escadas em uma velocidade terrível. Ele correu atrás dela, mas quando chegou à porta da frente, esta havia sido escancarada e sua esposa estava longe de ser vista. Ela nem tinha calçado os sapatos, então o homem também saiu correndo descalço. Por um breve momento, ele teve um vislumbre de sua silhueta branca girando, graças à luz no meio da encosta. Pelas ruas adormecidas, sua esposa disparou, rápida como o vento.

Ela entrou e saiu de sua visão enquanto ele a perseguia. Alcançando o caminho que desce de Senkōji até a Linha Sanyō, o homem parou por um momento para recuperar o fôlego e olhou para os arredores. Sua esposa estava voltando pelo caminho sinuoso, se aproximando do cruzamento da ferrovia.

— Foi quando o trem chegou — disse o concierge. Eu senti um arrepio descer pela minha espinha. — Ela parou na frente dos trilhos e olhou para mim. Eu nunca tinha visto uma expressão tão fria em seu rosto, nenhuma vez. Não parecia humana.

O concierge enxugou um pouco do suor.

— E então ela se jogou.

 

 

— Então sua esposa se matou? — perguntei em voz baixa, mas o concierge riu com desdém.

— Quem sabe?

— O que isso deveria significar?

— O trem não parou, e depois que passou não deixou nenhum resto. Em outras palavras, fui a única pessoa a vê-la se jogando. Quem acreditaria em mim? Então minha esposa desapareceu, e desde então a casa está vazia. É por isso que fiquei tão surpreso quando você falou sobre ela. Simplesmente não poderia ser verdade.

Depois que o concierge terminou de falar, comecei a me sentir extremamente irritado. Ele estava me dizendo a verdade?

— Você mora sozinho naquela casa?

— Como alguém poderia morar em uma casa daquelas?

— Mas você não foi lá esta tarde?

— Eu só queria conferir se estava tudo bem. Tive a sensação de que talvez, apenas talvez, minha esposa tivesse voltado.

— Você olhou no segundo andar…?

O concierge balançou a cabeça com medo.

— As venezianas daquele quarto estão todas fechadas. Está escuro, vazio. Só de pensar naquela escrivaninha lá no canto eu já fico arrepiado. Posso quase voltar a ouvir as gargalhadas dela. Quase não tenho coragem de subir aquelas escadas — disse ele, irritado, antes de voltar a ficar em silêncio.

Mas o que diabos estava acontecendo? Por que ele estava me contando sua história com tanta urgência? O número de clientes diminuiu e o silêncio no restaurante mudou. Agora era uma espécie de silêncio que me fazia pensar em como seria ficar trancado no quarto escuro do segundo andar daquela casa.

— Porque você está me contando isso?

— É, por quê?

— Não estou interessado em seus assuntos pessoais.

— Mesmo assim, você estava ouvindo com muito cuidado — retrucou ele. — Você estava suando um bocado.

Percebi que, na verdade, estava suando muito, assim como ele.

O concierge passou um lenço sujo na boca e me olhou incisivamente.

— Sir — disse —, por acaso você não saberia onde minha esposa estaria?

Um enorme ódio me preencheu enquanto eu olhava para este homem assustador. Eu estava começando a achar que ele era a fonte de todo esse problema. Cada palavra que saia de sua boca não passava de baboseira.

— Eu sei exatamente onde a sua esposa está.

O concierge estremeceu com a minha resposta.

— Onde?

— Você sabe muito bem o que quero dizer. No segundo andar daquela casa.

— Isso é impossível. Não há ninguém lá em cima.

— Isso mesmo, não há ninguém lá.

— Então…

— Sua esposa morreu. Você a matou.

— Do que você está falando?

— Você está me dizendo que estou errado?

— Então quem foi que pulou na frente do trem?

— Você sabe a resposta para isso.

Incapaz de encontrar uma resposta, o concierge ofegou, arregalando seus olhos esbugalhados. Seu rosto ficou branco como um lençol diante dos meus olhos, e eu não teria ficado surpreso se ele tivesse desmaiado ali mesmo.

Depois de um momento, o homem se levantou e cambaleou para fora do restaurante.

 

 

Pensei na noite em que minha esposa e eu tomamos o trem da noite.

— Parece que o amanhecer nunca vai chegar.

Assim que minha esposa disse essas palavras, o trem passou pela Estação Onomichi. Luzes explodiram ao nosso redor, fora da janela as plataformas desertas passavam zunindo, banhadas por luz fluorescente.

— Você já esteve em Onomichi? — perguntou minha esposa, lendo uma placa com o nome da estação enquanto passava.

— Não, nunca. — Por algum motivo eu menti.

Depois da Estação Onomichi, a Linha Sanyō passava por um antigo bairro de lojas e casas, construídas quase até os trilhos. Vi degraus de pedra que levavam aos portões do templo e caminhos estreitos que se arrastavam entre as casas. Em um momento a encosta desapareceu, mas a visão permaneceu em minha mente, como um túnel místico levando a uma terra desconhecida.

Olhamos para a cidade passando por fora de nossas janelas, mas quando o trem passou pela parte inferior da longa encosta que levava a Senkōji, vi uma mulher parada perto das luzes de sinalização no cruzamento. Não durou mais do que uma fração de segundo, mas me pareceu que ela estava acenando para mim.

Uma imagem passou pela minha mente, a de uma encosta banhada pelo sol de agosto. Eu estava me lembrando daquele verão, na pós-graduação, quando parei em Onomichi para ver Hasegawa.

Depois de olhar ao redor de Senkōji, descemos a colina. O caminho ziguezagueava por bairros antigos, a luz do sol refletida era quase cegante. O céu sobre o Mar Interior de Seto era de um tom de azul quase vertiginoso, e parecia tão quente quanto uma sauna.

O rosto e os ombros pálidos de Hasegawa flutuavam à sombra de sua sombrinha, quase etéreos.

Ao descermos a encosta, conversamos sobre o que planejávamos fazer quando voltássemos para Quioto e fofocamos sobre nossos colegas de classe. Ela me disse que queria voltar o mais rápido possível e começar a estudar.

— Faz sentido. Os exames de graduação são em setembro, certo?

— Eu simplesmente não consigo deixar de relaxar quando estou aqui.

— Isso não soa como você.

— Sério?

— Você sempre parece estar no controle das coisas.

— Não gosto quando as pessoas dizem isso. Na verdade, não estou no controle de tudo. Eu só escondo isso.

— Por quê?

— É assim que sempre fui.

— Então você tenta manter as coisas escondidas?

— Isso mesmo. Então, quando me atrasei hoje… Ainda não consigo acreditar que fiz isso.

— Eu não acho que seria uma coisa ruim mostrar esse lado seu — falei enquanto tentava soar alegre. — Se você quiser conversar, sou todos ouvidos.

— Não sei. Tenho muita coisa para fazer. — No meio da encosta, ela parou de andar. Estava olhando para a cidade se espalhando ao longo da costa, em direção a Mukaishima, de onde havia atravessado o mar para chegar aqui. Mas parecia que ela não estava realmente olhando para aquela paisagem marinha, mas sim para outra coisa. Eu fiquei lá, sem saber como reagir, até que sua boca se curvou em um sorriso.

— Mas você só está interessado em problemas que possa resolver, de qualquer maneira — comentou, começando a descer a ladeira.

Talvez Hasegawa só tivesse deixado as palavras que passaram por sua cabeça escaparem; talvez não houvesse nenhum significado profundo por trás delas. Afinal, era apenas uma estudante universitária de vinte anos que eu conhecia há apenas seis meses. Mas naquele momento senti que ela tinha visto através de mim, e quase parei no meio do caminho.

— Talvez parte de mim seja assim. — Era tudo que eu podia fazer para admitir isso. E desci aquela encosta longa e ardente atrás dela.

Acho que sempre estive vagamente ciente desse meu lado, mas tinha medo de que alguém apontasse para ele. Parecia que Hasegawa estava me dizendo: Você é o tipo de pessoa que foge ao primeiro sinal de problema, o tipo de pessoa que se encolhe quando mais é necessária.

Saí do meu devaneio no vagão e encontrei minha esposa com a testa pressionada silenciosamente contra a vidraça. Sua expressão estava estranhamente fria, e eu senti como se a pessoa na frente dos meus olhos fosse uma estranha. Ela não respondeu quando a chamei, e foi só quando estendi a mão e sacudi seu ombro que pareceu perceber onde estava.

— O quê?

— Tudo bem? Você parecia estar fora de si.

— O quê? Sério?

— Sim, sério.

Mas ela continuou a olhar pela janela com uma expressão ligeiramente perplexa. As luzes fracas da cidade banharam seu rosto e se foram.

O trem seguiu em frente na escuridão da noite.

Voltei a olhar pela janela. Quem era aquela mulher parada no cruzamento ao pé da ladeira? Foi só um breve vislumbre, mas ela me lembrava Hasegawa. Mas isso era impossível. ela havia desaparecido em Kurama cinco anos atrás e ainda continuava desaparecida.

Minha esposa abruptamente interrompeu meus pensamentos.

— Você não viu nada assustador lá fora, viu?

— Assustador?

— Uma mulher — disse minha esposa. — Ela estava parada em um cruzamento. Você não viu?

— Não, não vi nada… — respondi, balançando a cabeça. — O que havia de assustador nela?”

Minha esposa pensou por um momento antes de responder.

— Era quase como se eu estivesse olhando para mim mesma…

 

 

Rapidamente paguei minha conta e saí do restaurante de sushi.

O bairro comercial estava silencioso e o concierge não estava à vista.

Corri para um beco que conduzia aos prédios e saí em uma rua. Do outro lado da estrada ficava a Linha Sanyō e, do outro lado da travessia, os degraus de pedra levavam aos portões do templo e, de lá, para as casas na encosta.

Preciso da sua ajuda. Suas palavras ecoaram em meus ouvidos.

Eu não me importava mais com o por quê pelo qual minha esposa havia mudado, ou o que isso tinha a ver com o concierge. O importante é que minha amada esposa estava pedindo minha ajuda. Eu precisava resgatá-la do segundo andar daquela casa e tirá-la de Onomichi o quanto antes. Eu deveria ter vindo para esta cidade mais cedo. Nunca deveria ter deixado minha esposa sozinha.

Não sou uma pessoa que foge de problemas, pensei comigo mesmo. Não sou.

Rapidamente corri pelo cruzamento e pelo templo deserto.

Durante o dia, a vizinhança da encosta parecia totalmente diferente. Os degraus de pedra iluminados por lâmpadas e as encruzilhadas eram como os corredores sombrios de um aquário. Apenas meus passos ecoavam alto no silêncio.

À medida que me aproximava cada vez mais daquela casa na colina, comecei a notar as ruínas. Era fácil distinguir isso, já que eram lugares vazios onde nenhuma luz poderia chegar. Lençóis azuis escondiam as paredes em ruínas e telhas velhas estavam empilhadas diante das portas. Quanto mais delas havia, mais escuras as ruas se tornavam.

Depois de caminhar um pouco, olhei para trás e vi a costa escura se espalhando sob meus olhos. Naquele momento conheci a noite como nunca antes tinha conhecido. Parecia que o amanhecer nunca chegaria.

Quando cheguei ao caminho que conduzia àquela casa na colina, uma silhueta escura surgiu da sombra das ruínas. Era o concierge.

— Aonde você está indo?

— Estou indo para a casa.

— Por favor, não. Não há ninguém lá.

— Vou buscar minha esposa.

No instante em que essas palavras deixaram meus lábios, ele se lançou contra mim.

A próxima coisa que eu soube foi que estava sendo pressionado contra a estrada. O concierge estava montado em mim, suas mãos em volta da minha garganta. Seu rosto enfurecido estava a poucos centímetros do meu e gotas de suor caíram na minha testa. Mas não tive medo. O que senti não foi medo, e sim fúria. Foi uma fúria que eu nunca tinha conhecido antes, uma fúria que se espalhou como fogo das profundezas sem luz da minha alma, transformando todo o meu ser.

Estendi a mão direita e senti um pedaço pesado de ladrilho quebrado. Envolvendo meus dedos em torno dele, o esmaguei contra a têmpora do concierge. A sensação foi indescritível. Ouvi um gemido. Bati nele uma segunda vez, e uma terceira, até que os gemidos parassem. Ele ficou mole. Empurrei seu corpo imóvel de lado e respirei violentamente.

Depois de um tempo, resolvi me levantar.

O concierge estava deitado à beira da estrada, com o corpo enrolado e os olhos fechados. A expressão em seu rosto era miserável, e quase esperei que ele explodisse em lágrimas. Só para ter certeza, golpeei sua cabeça mais uma vez. A única resposta foi um som como um suspiro, que rapidamente desapareceu na escuridão.

Joguei o ladrilho de lado e olhei para as minhas mãos encharcadas de sangue.

 

 

Subi em direção à casa na colina.

As luzes haviam sido apagadas nas casas do lado esquerdo do caminho e a floresta do lado direito estava completamente escura. Uma lanterna brilhou no meio do caminho, mas além dela havia apenas um túnel sem luz.

Na escuridão, olhei para minhas mãos, molhadas de sangue.

Aquilo passou pela minha cabeça de novo: A sensação física de bater em uma cabeça e o último suspiro que escapou dele. Tinha soado quase como um suspiro meu. Naquele momento, finalmente tive certeza – a transformação de minha esposa também havia sido por minha causa.

Olhei para cima, em direção ao topo do caminho, e vi a figura de uma mulher em um vestido branco de verão aparecer no meio da escuridão. Ela estava acenando com a mão direita sob a luz, sorrindo para mim. Era minha esposa. Ela estava esperando por mim.

— Você veio por mim. Vamos, vamos para casa.

Ela começou a subir a encosta ao meu lado.

Sim, percebi, iríamos para aquela casa.

— Você estava no segundo andar, não estava?

— Sim, eu estava lá o tempo todo. Estava tão escuro, igual a um quarto trancado.

— Você não precisa mais se preocupar. Eu cuidei dele.

— Bem feito! — Ela riu consigo mesma, então levantou a cabeça e olhou para cima. — Ah, lá, consigo ouvir.

— Ouvir o quê?

— O trem correndo. Do segundo andar dá até para ver. — Ouvi o barulho da travessia ao pé da montanha… O trem da noite estava passando.

Por que eu estava tão preocupado em trazer minha esposa de volta? Como fui idiota. Eu não tinha entendido nada. Mas pelo menos não tinha fugido. Enquanto esses pensamentos passavam por minha mente, uma ligeira tristeza cresceu dentro de mim e eu parei no meio do caminho.

Minha esposa olhou para mim.

— Algo de errado? Não consegue mais andar?

— Só estava me sentindo triste.

— Já estamos chegando, vamos!

— Sim, isso mesmo. Vamos para casa.

Estendi a mão manchada de sangue e minha esposa a pegou. E quando ela o fez, toda a minha tristeza se dissipou. A noite negra que nos envolvia parecia um cobertor doce e familiar. Apertei a mão dela esposa com força e, desta vez, não pretendia soltar.

E de mãos dadas voltamos para casa, para a casa na colina.

 


Notas:

01 – É um mar que fica entre Honshu, Shikoku e Kyushu, e posteriormente se funde ao Oceano Pacífico e ao Mar do Japão.

02 – Uma das principais linhas ferroviárias da região Oeste do Japão.

03 – Um diorama é um modo de apresentação artística tridimensional, um tipo de maquete extremamente bem detalhada.

04 – Câmara dos Representantes ou câmara baixa da Dieta Nacional do Japão. É um dos dois poderes políticos do Japão, e também o mais forte dentre eles.

05 – Obon, Bon Odori ou apenas Bon. É um costume budista japonês no qual costumam homenagear os espíritos ancestrais. É aquele festival em que costumam jogar várias lanternas orientais de papel no mar.

06 – É um templo histórico que fica em Onomichi.

07 – Concierge é um termo derivado do francês que poderia ser facilmente traduzido como “porteiro”. A função dele é atender as necessidades especiais dos hóspedes do hotel.

08 – Um tatame mede 90×180 centímetros, logo, é um cômodo de 9×18 metros.

09 – Mercado de pulgas ou feira de ladra; é um local onde muitos vendedores de reúnem para vender diversas coisas, inclusive produtos artesanais. É a famosa feira do rolo.

10 – Cidade localizada a cerca de 7 km de Onomichi.

11 – É o bodisatva associado com a compaixão e é venerado pelos budistas. Geralmente adota uma forma feminina.

12 – É um produto feito de frutos do mar, no qual vários peixes brancos são batidos, combinados com aditivos, modelados como se fossem pão e depois cozidos até tomarem uma consistência mais firme.

 

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