Disciple – Capítulo 1 – Uma camponesa, um rio e um campo


 

Zhu Yao sentiu que foi parar em outro mundo, e tudo isso aconteceu do nada. Há pouco, estava conversando com sua amiga pelo computador, discutindo sobre a brecha no novo jogo online que a companhia dela desenvolveu. No instante seguinte, já estava dentro daquela casa com teto de palha, ainda segurando o mouse branco.

Por dez minutos inteiros, não reagiu nem um pouco. Observava o mouse que tinha em mãos e, subconscientemente, procurou pela CPU e pelo monitor que desapareceram de repente. No entanto, não pôde fazer nada além de encarar a mesa velha à sua frente. Que computador? Que monitor? Nem a porcaria do teclado estava encontrando.

— Pirralha fedida, por que ainda está aí sentada? — Alguém empurrou a porta, e uma mão foi em sua direção. Ela se esquivou por instinto, o mouse que segurava escorregou, rolando no chão e desaparecendo sem deixar traço algum.

Zhu Yao levantou a cabeça e olhou para a pessoa ao seu lado. Era uma mulher magra, as rugas em suas testas eram profundas, e as roupas estavam acinzentadas, como se a cor tivesse desbotado depois de ter sido lavada muitas vezes. Todo o seu corpo passava a aura de “Sou uma camponesa”. O principal fator era as roupas de estilo antigo que usava.

— Quem é você?

No mesmo instante, a mulher se irritou.

— Quem sou? Ficou confusa depois de ter dormido tanto!? Sou sua mãe! Se apresse e vá ferver um pouco de água, o sol já está brilhando tanto que está queimando minha bunda, e você ainda está vagabundeando dentro de casa! Tá querendo uma bofetada?

Ela errou o primeiro golpe, mas, com a outra mão, ergueu Zhu Yao e jogou-a para fora do quarto sem dar qualquer explicação.

Ela queria uma explicação, mas, infelizmente, não conseguiu encontrar a oportunidade. Então, quando voltou a si mesma, já tinha sido jogada na cozinha.

Ao olhar para a lenha, empilhada até a metade da parede, e a fornalha de argila, sentiu que, sem sombra de dúvidas, havia algo de errado com o seu método de transmigração de mundo. Ainda usava o mesmo pijama, sem mudança alguma. Isso provava que tinha atravessado com o próprio corpo, mas como aquela tal “mãe” apareceu? Mesmo que tenha ido com o corpo, usava um sistema de cruzamento de alma. Estava tudo bem mesmo? Mas o mais importante era: ela não fazia ideia de como começar o fogo, quanto mais ferver água!

Embora soubesse que transmigração de mundo fosse como ir às compras, algo que se tornou um fenômeno mundial, nunca imaginou que seria a sua vez. Afinal, ela não passava de uma nerd da tecnologia.

Por sempre estar interessada em computadores desde que era jovem, depois que se graduou, só trabalhou em empregos relacionados à criação de jogos. Com um grupo de amigos, desenvolveram o próprio jogo. O “Divindade Real”, criado por eles, se tornou um dos mais populares do país. E, à medida que ia sendo aperfeiçoado, salvaguardá-lo se tornou o seu principal trabalho na empresa. Investigar as brechas e bugs que existiam, sugerir soluções e tal… Ela era uma das lendárias GM.

Não havia benefício algum em fazer ela parar em outro mundo, havia?

Que tipo de infeliz fez eu vir para outro mundo? Apareça! Prometo que não vou te bater até que peça arrego!

Três meses passaram voando. Ela esteve neste mundo por todo esse tempo e passou a entender melhor a situação ao seu redor. O local em que vivia era uma pequena aldeia. Pelo fato de a grande maioria das pessoas serem chamadas de Zhu, recebera o nome de Aldeia Zhu. O nome dela também era Zhu Yao, e a mulher de meia-idade daquela vez era sua mãe. Era uma das viúvas do lugar e, de acordo com suas investigações, mãe e filha precisaram confiar uma na outra por décadas.

Tentou explicar a situação sobre a sua origem para a sua suposta mãe com desenhos feitos à mão. Infelizmente, ela não acreditou, e Zhu Yao foi forçada a visitar o Doutor Wang, que ficava perto da entrada da aldeia, dizendo que precisava de alguns murros.

Ao ver o homem de meia-idade e aparência gentil afagando a barba enquanto pegava dezenas de agulhas da grossura de um dedão, Zhu Yao, no mesmo instante, deixou de lado sua integridade, agarrou-se em sua “mãe” e desatou a chorar.

— Mãe! Você é minha mãe biológica!

— Já está com as ideias mais claras agora? Nunca mais fale uma coisa dessas. — Com um olhar aflito, a “mãe” limpou as lágrimas de Zhu Yao, não se esquecendo de elogiar o Doutor Wang. — O Doutor Wang é realmente um médico genial. No momento em que mostrou as agulhas, minha filha se recuperou.

— Você me lisonjeia! — O Doutor Wang riu com orgulho, girando a agulha na mão. — Senhorita Zhu, você também é muito educada. Só por garantia, permita-me golpear Yao’er mais duas vezes, a fim de evitar recaídas.

— … — Sua irmã que vai recair1.

Então, Zhu Yao deixou o seu antigo eu de lado e, desde então, nunca mais se atreveu a tocar no assunto de ter vindo de outro mundo e viveu pacificamente na Aldeia Zhu como uma velha senhorita! Isso mesmo, era uma velha senhorita.

Quando atravessou, tinha vinte e oito anos, e, neste mundo, por ainda estar solteira nessa idade, era considerada muito velha para ser chamada de senhorita.

Quanto ao motivo por não ter se casado, sua “mãe” não comentou sobre, mas Zhu Yao já tinha uma ideia. Ela tinha muito medo de que um marido aparecesse do nada, e, caso isso acontecesse, mesmo que o Doutor Wang a atingisse com um porrete de madeira, ela não daria a mínima.

— Yao’er, está indo lavar a roupa?

Quando estava prestes a ir até à beira do rio, encontrou-se com o Doutor Wang no caminho, e ele sorria como um girassol, que cheirava como um crisântemo2.

— Ti… Tio Wang! — Por instinto, ela deu um passo para trás, com medo de que ele puxasse uma agulha de algum lugar.

Ela se protegeu com o cesto de madeira cheio de roupas.

— A mãe disse que o tempo está bom hoje, por isso quer que eu lave os lençóis.

— Então é isso! — Ele riu, então, suspirou. — Que garota diligente. Se não fosse…

Pausou no meio da frase, e, como se tivesse prestes a dizer algo que não devia, olhou para ela apologeticamente.

— Há algo que precise de mim, Tio Wang? — Ao ver o seu olhar hesitante, Zhu Yao não teve escolha a não ser tomar iniciativa.

O Doutor Wang riu gentilmente e puxou um garotinho para perto dele.

— É o seguinte, ouvi dizer que há divindades vindo à cidade para selecionar discípulos, e todos podem participar. Queria que meu filho tentasse a sorte, mas minha esposa está doente, por isso não posso partir, então…

Zhu Yao olhou para o garoto que ele abraçava. Parecia ter sete ou oito anos de idade e tinha um rostinho muito delicado e bonito. No momento, suas bochechas estavam estufadas, e ele a observava, fazendo beiço, o que fez Zhu Yao sentir vontade de apertá-las.

Ela levantou a cabeça e olhou para o Doutor Wang. Era evidente que os dois não eram nem um pouco parecidos.

— Tio Wang, quer que eu o leve no seu lugar?

Ele assentiu, ficando ainda mais envergonhado.

— Sei que isso pode interromper o seu trabalho, mas essas divindades só vêm a cada dez anos. Embora a quantidade de pessoas selecionadas possa ser contada nos dedos, ainda vale a pena arriscar, pois a pessoa que for selecionada também pode se tornar uma divindade.

Se tornar uma divindade? Zhu Yao sempre foi alérgica a esses tipos de coisas anticientíficas, pois era capaz de sentir o leve cheiro de fraude.

Mas, por outro lado, ela e o Doutor Wang viviam na mesma aldeia, e não era como se pudesse voltar logo para o próprio mundo. Além disso, já que os dois se encontravam com frequência, não era um problema ajudar de vez em quando. Por isso, sem dizer mais nada, aceitou o pedido.

Depois que o Doutor Wang lhe agradeceu diversas vezes, ele levou o cesto, dizendo que o devolveria no lugar dela, e empurrou o garoto, que parecia estar bravo com ela. Logo depois, partiu alegremente.

Depois que estava distante, o garotinho se soltou de sua mão abruptamente e, fazendo beiço, olhou para ela com desprezo.

— Fique sabendo, mesmo que me ajude, não vou me casar com você.

Zhu Yao ficou chocada e, por um momento, viu graça naquilo. Não pôde deixar de beliscar as bochechas macias dele.

— Pirralhinho, você ainda nem tem idade, que bobagens acha que está falando?

— Não é bobagem! — Ele se livrou das mãos dela e esfregou as bochechas ardidas. — Já ouvi os outros falando sobre isso. Ninguém se atreve a se casar com você, por isso que continua solteira aos vinte e oito anos. Todos os homens devem manter distância, caso contrário, a vida deles será arruinada se precisarem depender de você.

Não importava o tamanho do desespero que tivesse, não colocaria as mãos em uma criança… né?

— Diga-me, como eu iria arruinar a vida deles?

O pestinha ficou ainda mais arrogante.

— Você não pode dar à luz a filho algum, qualquer um que casar com você terá a linhagem cortada, isso com certeza arruinaria a vida deles.

Infertilidade! Zhu Yao ficou chocada ao ouvir esta revelação chocante. Era impossível. Mesmo que fosse uma nerd da tecnologia, ainda costumava a realizar exames todos os anos. Como não saberia sobre isso? Mesmo que deus tivesse pensado como uma mulher solteira de vinte e oito anos iria para outro mundo, não precisava ter pegado tão pesado, certo?

— Sou o único filho da minha família, não me casarei com você, então pode desistir! — Colocou a mão na cintura e, mais uma vez, enfatizou com um tom sério.

— Ei! Que atitude arrogante é essa!?

Como esperado de um pestinha mimado. Deixe três dias sem uma palmada, e a criança vai subir no telhado para arrancar as telhas! Ele estava pedindo umas bofetadas!  Enrolando as mangas, ela agarrou o garoto com uma única mão e, com a outra, fez com que sua bunda emitisse um som estalante.

— É isso o que você ganha por não ter modos! Isso é por ficar cuspindo bobagens! E isso é por ficar me chamando de infértil! Você é infértil! Toda a sua família é infértil!

O pestinha finalmente conheceu o medo e começou a se debater, desesperado. Porém, era apenas uma criança de sete ou oito anos, como poderia se comparar com Zhu Yao, uma adulta — solteirona — de vinte e oito anos? Vários tapas foram dados, a bunda branca dele já havia inchado e ficado vermelha.

Ele também começou a gritar em alto e bom tom depois de se debater um pouco, mas, no fim, acabou desistindo da resistência fútil.

Vamos, chore mais, chore mais. O Doutor Wang já está bem longe, mesmo que chore até ficar sem ar, ninguém vai te salvar. Wakakakakakakaka… hum… Parece que tem algo estranho com essa cena?

Ela só soltou o garoto, cujo o rosto já estava inchando de tanto gritar, meia hora depois. Então, o observava enquanto ele limpava as lágrimas e erguia as calças. A sensação de uma lição bem dada em um pestinha mimado foi simples e incomparavelmente refrescante.

— Vou deixar essa passar por agora. Se você mostrar um comportamento mal-educado de novo, vou… — Ela arrastou seu aviso, olhando com satisfação para o pestinha mimado que tremia, então, riu com ainda mais alegria. — Vou ter a certeza de que você não consiga mais sair da cama, entendeu?

Hm? Essa frase não soou meio estranha? Ah, que se dane mesmo.

— Vamos. Temos que ir à cidade, então me siga!

Ela ficou na frente enquanto caminhava pela rua principal. Depois de dar uns cinco passos, o pestinha mimado, agora manco, foi logo atrás. Parecia que uma chaleira podia ser pendurada no beiço que ele fazia.

 


Notas

O título deste capítulo vem de um ditado. Na antiguidade, o sonho de toda garota era ser uma camponesa, viver ao lado de um rio e ter um pedacinho de terra para morar.

1 – É o mesmo que xingar a mãe de alguém.

2 – Significa que há segundas intenções por trás do sorriso

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